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“Diário de um Sem-Abrigo” de Jorge Costa

por Luís Marcelino, em 11.08.22

Não acredito necessariamente que os livros chamem por nós, mas reconheço que há alguns que nos entram pela vida adentro, nos agarram pelos colarinhos e tomam conta do nosso ser tomando de assalto a nossa mente e deixando marca profunda. Hoje terminei um desses livros. 

O título, Diário de um Sem-Abrigo, diz logo ao que vem e a breve biografia do autor conta logo a história da personagem principal. O diário não é na verdade um diário, mas propõe-se à mesma tarefa. Trata-se da coletânea das catorze crónicas que Jorge Costa escreveu para o jornal Mensagem de Lisboa com o propósito de dar voz aos invisíveis falando sem romantismos, nem embelezamentos sobre algo que nada tem de belo e fá-lo corajosamente escrevendo na primeira pessoa, dando-nos dessa forma o que é viver o dia a dia de um sem-abrigo.

Jorge viveu na rua durante oito meses, foi alvo do desprezo, do nojo, da indiferença. Jorge foi invisível, viveu, como diz a certa altura, pior que um cão. Dormiu encharcado pela chuva no chão de paralelos da cidade, fez parte integrante da paisagem de Lisboa, teve como sua casa a cidade inteira, as estrelas como teto. Conta-nos a experiência de dormir pela primeira vez num banco de jardim, conta-nos o desespero de não saber o que fazer, de não ter para onde ir nem a quem recorrer. Conta-nos que um miserável não se sente miserável, apenas o é. 

Diário de um Sem-Abrigo não é um livro repleto de frases literárias pensadas para ressoarem na nossa mente. É um conjunto de textos escritos com a memória, crus, reais, repletos de sentimento e verdade. Sente-se que Jorge nos conta episódios da sua vida, como o nosso avô nos conta histórias da dele. Mas percebemos as dificuldades e o sofrimento, e percebemos que os Sem-Abrigo são pessoas esquecidas por uma sociedade que não lhes dá a mão. Uma sociedade de que todos fazemos parte. 

Não costumo fazer este tipo de coisas, e por isso não escrevo este texto como sendo uma review, é um passar de testemunho, é um “leiam!”. Pelo senhor  Jorge e por todos os sem-abrigo, por vocês e pelo melhor da sociedade. Este livro propõe-se a isso, tornar a sociedade um bocadinho melhor através da sensibilização. Estas crónicas são um ensinamento. De humanidade, de humildade e de empatia que tanta falta fazem nos dias de hoje.

Leiam! É obrigatório.

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2 comentários

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De s o s a 13.08.2022 às 21:08

A uniao europeia preve erradicar os sem abrigo em 20 ou 30 anos, li recentemente.

Ou seja, os sem abrigo continuarao desprezados e a morrer precocemente devido a essa condiçao.
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De Luís Marcelino a 16.08.2022 às 21:03

Tenho algumas dúvidas de que alguma vez a UE vá conseguir tirar todos os sem-abrigo da rua.

Ainda que tenhamos em conta ser um assunto complicado, vemos investimentos tão estapafúrdios e inúteis cujos fundos para a sua realização poderiam facilmente ser canalizados para combater este e outros problemas sociais.

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