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Desaparecido

por Luís Marcelino, em 21.04.22

Tenho andado desaparecido. Não que alguém sinta a falta, é provável que ninguém sequer repare. Na verdade não sei até que ponto alguma coisa pode estar desaparecida sem que alguém a procure. Talvez seja mais acertado dizer que não tenho aparecido.

Não vou pedir desculpa, não há ninguém a quem desculpar-me. Afinal estes textos são como um rascunho num papel amarrotado com que faço pontaria ao caixote do lixo. Raramente acerto, cai sempre ao lado. Volta e meia alguém o agarra e tenta decifrar o que lá está escrito. Compreensivelmente não entende e certifica-se que o coloca onde é suposto, no lixo. Mau demais para ser reciclado.

Falta de tempo, falta de motivação, falta de jeito. Tanta falta, nenhuma abundância. A vontade vai aparecendo, faltam as ideias. Outra. E quando surgem, bem, são difíceis de concretizar. Por isso mesmo, a principal razão de não aparecer é o jeito, a falta dele. É frustrante ter ideias cuja concretização fica tão aquém. E por isso não escrevo, não vale o esforço, tenho pena de mim próprio. Com ideias tão ambiciosas, tão longe de ser capaz de as concretizar.

Depois vem a preguiça, crónica, doentia, debilitante. E não escrevo, não leio, não toco, não faço absolutamente nada. Um dia escrevo um livro. Mas sei que é mentira, não vou escrever livro nenhum. Não escrevo um texto curto quanto mais um livro. Porquê? Mais faltas. De paciência, de histórias, de método.

Mas aqui estou eu, aparecido, sem nada para dizer mas a tentar dizer alguma coisa. A ver se é desta que acerto no caixote do lixo, senão certifiquem-se que lá chega.

Um dia ainda hei de escrever um livro.

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